Como o cérebro age em situações urgentes?
02/09/2014
Leandro Teles (217 articles)
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Como o cérebro age em situações urgentes?

O cérebro humano é dotado de incríveis capacidades emocionais e cognitivas, isso é fato e todo mundo sabe. Agora, você sabia que existe um sistema de funcionamento específico para situações emergenciais? Um sistema que evoluiu em milhares de anos para nos tirar de situações de risco iminente de vida. Atualmente, esse sistema é ativado em situações de violência urbana, acidentes de qualquer natureza, eventos naturais, sustos intensos ou mesmo fora de hora, em pessoas ansiosas e muito estressadas.

Em situações agudas, onde a tomada de decisão precisa ser rápida e o recrutamento muscular quase imediato, a natureza prioriza algumas funções e reduz nossa capacidade em outras. Existem evidentes mudanças no Corpo e no Cérebro, para esse momento chamado de “Luta ou Fuga”. Boa parte dessas alterações são ocasionadas pela adrenalina liberada no sangue pelas glândulas adrenais e pelo cortisol outro hormônio do estresse.

Além disso ocorre ativação de todo um sistema coordenado de nervos chamado Sistema Simpático. Vamos às alterações.

No Corpo:

  1. Aumento na Frequência Cardíaca e da Pressão Arterial: Providencial, com isso temos um ganho de performance motora e o sangue chega com mais rapidez aos órgãos nobres.
  2. Pupilas Dilatadas: isso aumenta nossa visão do todo, de modo a procurarmos uma saída, visualizarmos um ataque, etc. No entanto, com as pupilas dilatadas percebemos menos os detalhes
  3. Direcionamento de Sangue para os músculos: nada mais justo. Precisamos de força e velocidade para resolver a situação. A ativação muscular intensa pode levar a espasmos e sobressaltos, como em um susto. A contração é mais intensa e mais grosseira, ficamos menos aptos a atividades delicadas e que exijam muita destreza. Tremores podem aparecer nessas situações.
  4. Interrupção das funções intestinais, urinárias e sexuais: são funções basais de segundo plano. Em situações urgentes o corpo opta por reduzir muito o funcionamento delas, para evitar gasto energéticos e empecilhos na solução do dilema emergente.
  5. Outras alterações:
    • Pelos eriçados (provavelmente herança de grandes primatas que pareciam maiores com seus pelos eriçados);
    • Pele mais pálida e fria (por desvio de sangue para a musculatura)
    • Sudorese (devido à intensa ativação das glândulas sudoríparas para dissipar o calor produzido pela ativação vascular e muscular).

Mudanças Cerebrais:

  1. Como o corpo!  o cérebro também mostra modificações funcionais evidentes durante situações extremas. A saber:1)Ativação de Sistemas Instintivos: O cérebro cobrado por decisões urgentes opta por ativar  regiões profundas e antigas como a amígdala, giro do cíngulo, hipotálamo, entre outras. Isso gera respostas padronizadas de sobrevivência. Geralmente são condutas extremas, emocionais e nem sempre justificáveis pelo senso comum.
  2. Redução da Percepção Fina: O cérebro trabalha com variáveis, percepções do ambiente externo e interno (pensamentos e sensações). Em situações extrema a percepção geral é reduzida, percebemos o todo, o grosseiro, ficamos com poucos variáveis na consciência. Quem nunca ouviu de alguém que passou por uma situação limite que ficou cego de raiva, ou que não ouviu nada ou não percebeu determinado detalhe. O cérebro na urgência trabalha de forma geral e reflexa, sem grandes análises.
  3. Redução do funcionamento do Raciocínio Analítico: Os lobos frontais são a sede do raciocínio lógico e analítico. São a maior diferença evolutiva entre o homem e os ditos animais inferiores. Em situações extremas seu funcionamento é reduzido, não é permitido “titubear”, analisar hipóteses, buscar a análise minuciosa e prospectiva dos efeitos da ação a médio e longo prazo. O que nos faz diferenciado é desligado quanto mais urgente a situação que vivemos, ou pensamos que vivemos.
  4. Todas essas mudanças criam um ambiente potencial de erros, tanto de julgamento, como de conduta. Por isso é fundamental ter clareza da ocorrência de uma situação limite, para não acionar o sistema Fora de Hora. Além de ter clareza de como conduzir as principais situações extrema do dia-a-dia atual, para não acabar se arrependendo amargamente de condutas inadequadas em situações de risco iminente.
  5. Essas situações limites não  nos mais inteligentes, mais resolutivos, e sim mais rápidos e buscando livrar a própria pele. Pessoas emocionalmente mais instáveis acabam por ter um limiar mais baixo na ativação desse sistema. Isso ocorre também com pessoas em fases mais estressadas e ansiosas. Gerando má adaptação social, tomada equivocada de decisões e erros não forçados.

Por isso o recomendado é:

  • Manter controlado o nível de estresse crônico, assim como a ansiedade.
  • Aprender a lidar com situações estressantes com relativa tranquilidade, dando tempo para o cérebro processar a informação e agir mediante o raciocínio mais complexo. (Limiar alto para o descompensação).
  • Prever situações limite e padronizar a respostas, exemplos: Nunca reagir a assaltos / Nunca acessar o elevador em um incêndio / Não pular pela janela sem orientação / Nunca partir para agressão física no transito / etc.
  • Reconheça pequenos sinais do corpo e do ambiente de que algo pode sair do controle.
Leandro Teles

Leandro Teles

Neurologista graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com especialização no Hospital das Clínicas (HCFMUSP). É membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e também atua como consultor em programas de TV, rádio, revistas, jornais e portais na internet com o intuito de melhorar a qualidade de vida das pessoas através da disseminação do conhecimento médico. O doutor Leandro está frequentemente presente no Programa Mulheres (TV Gazeta) e Vida Melhor (Rede Vida) e também já participou como consultor ou entrevistado em programas como: Todo Seu, Você Bonita, Notícias & Mais, Hoje em Dia, Domingo Espetacular, entre outros. Também é colunista fixo do portal Vivo Mais Saúde, ao lado de nomes como Márcio Atalla, Drauzio Varella e Laura Müller.